Capítulo 3- Uma vida nova para a princesa

Se me permitem, pularei os meus primeiros anos de vida. Minha infância não foi muito diferente das convencionais, tirando o fato de que comecei a ler com quatro aninhos.
Acho que foi mais ou menos nessa época que começaram a me chamar de Cinderela Shakespeariana. Bem, não pense você aí que meu primeiro livro foi alguma obra de Shakespeare. Pelo contrário, a obra que recebeu o título de 1ª na minha vida foi a "Raposa e a cegonha", nada de muito emocionante, como todos sabem. Para ser sincera, não gostei nem um pouco daquela história.
Ninguém lá em casa gostava de ler, deve ser por isso que eu aprendi bem cedo, sempre fui do contra. Em um mês já havia decorado todas as obras infantis que possuíamos. Tentei ler livros adultos, mas meus pais não tinham nada além de um Kama Sutra velho e empoeirado. Acho que nenhum deles jamais o leu, provavelmente folhearam algumas vezes para apreciar as figurinhas sacanas.
Quando eu estava completando seis anos, minha família resolveu fazer uma viagem de férias. Sombra, mar e água fresca. Tudo o que papai sempre quis desde meu nascimento. O único problema é que eu não estava incluída no pacote.
Fiquei na casa de um primo meu. Acredito que aquele tempo que passei com Davi foi ótimo para minha formação. Ele era um homem culto e atencioso. Ajudava-me a ler obras muito interessantes da literatura estrangeira. Foi aí que descobri o fantástico mundo de W. Shakespeare.
Meus pais não voltaram para me buscar.
Depois de alguns meses, Davi começou a preocupar-se com a demora. Todas as noites, depois de me colocar para dormir, ele pegava o telefone e tentava encontrar minha família. Durante muito tempo tudo que conseguiu ouvir foi a secretária eletrônica avisando que não estavam no momento.
Um ano se passou e eu continuava morando com meu primo. Nem sinal de James, Rodrigo, mamãe e papai. Acho que foi nessa época que Davi passou a ser minha família.
Não posso reclamar da vida que levei com ele. Era perfeita. Brincávamos o dia inteiro e à noite íamos até um parque de diversões para gastar as energias que sobravam.
Só voltei a ver minha família quando tinha nove anos.
Era um domingo de manhã. Davi e eu estavamos tomando um delicioso café , para irmos até o teatro em seguida. A campainha tocou. Eles queriam me levar para casa.
Depois de tanto tempo, já havia perdido as esperanças. Já havia refeito minha família e essa era Davi, somente ele. Não havia vaga para viajantes naquele trem.
Me recusei. Mas como sempre, a "justiça" se opunha a minha decisão. Precisei partir.
Arrumei minhas coisas e sai, com a condição de visitar Davi todos os dias. É claro que isso nunca aconteceu. Meus pais arranjavam desculpas esfarrapadas para que eu não o visse. Com o tempo, os encontros foram diminuindo, até simplesmente se encerrarem.

 

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publicado por cinderelashakespeariana às 18:14
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