Capítulo 8- Um par para a dama

Depois de intermináveis minutos de espera, mamãe e o cachinhos de ouro voltaram. Sorriam tanto que me senti a pessoa mais triste do mundo só de comparar nossas expressões.
Depois de fazer mistério, mamãe jogou uma fantasia imensa em cima de mim e pediu para q eu a vestisse. Fiz o que me foi ordenado.
Só então reparei diante do espelho qual era minha personagem. Um urso! Isso mesmo, um gordo e imenso urso com um laço cor de rosa na cabeça. Aquilo era bizarro.
Minha inspiração disse que eu não seria a protagonista da história, mas que a mamãe urso também era importante naquele conto. Papo furado, ele só queria tentar me deixar feliz para que eu fosse embora logo. Saquei isso na hora.
Bom, de qualquer forma eu não teria tempo para arranjar outra melhor ou pior que aquela. Seria uma ursa e pronto.
-Vou lá em casa pegar o carro e as maquiagens, então te levo para a festa- disse mamãe.
-Vou com você- tentei resistir, já sacando o joguinho dela.
-Não.. ahn, gostaria que você ficasse um pouco...- alegou o cachinhos de ouro corado.
Tudo bem, eu pensei. É a primeira vez que alguém da minha idade quer minha companhia. E a melhor parte é que esse alguém é o maior gatinho! Sem problemas, eu fico.
-Prazer, Leonardo!- sorriu estendendo a mão.
-Cinderela.
-Sério?

-Sim.
Não! Tô tirando onda com a tua cara.
-Vai em uma festa a fantasia então? - perguntou ele balançando a cabeça, como aqueles cachorrinhos que colocamos no carro.
-Não, eu costumo sair vestida de mamãe urso por aí.- disse em tom de brincadeira.
Nós rimos. Foi um momento de cumplicidade. Ele me olhou nos olhos e senti que já o conhecia.
Tinha olhos da cor do mar. Eram lindos, brilhantes, como os de Davi. Aquele pensamento me fez lembrar dele. Quanto tempo que não o via. Por onde andaria agora?
Mamãe jamais voltou a tocar em seu nome perto de mim. A última vez que o vira fora naquela manhã antes de minha família ir me buscar de sua casa. Sentia saudades. Sentia falta de suas leituras antes de dormir. Do jeito como se referia as mulheres. Do respeito que tinha pelas pessoas.
Então, depois de muito tempo lembrei-me do apelido que me dera quando criança. Cinderela Shakespeariana. A menina romântica e devoradora de obras do grande mestre da literatura. Como seria encontrá-lo de novo? Como será que ele reagiria se eu lhe contasse que depois de tantos anos ainda não havia desgostado dos livros e suas histórias doidas?
Senti um aperto no coração e um no braço. Leonardo falava comigo.
-Tá tudo bem com você, menina ursa?
-Tá sim.
Pensei em explicar-lhe sobre o que pensava e lhe contar como seus olhos lembravam-me meu primo. Mas percebi que não seria apropriado para o momento.
- Você vai fazer alguma coisa essa noite?- perguntei-lhe surpreendendo a mim mesma.
- Não. Nada além de ficar aqui sozinho, nessa sala escura e sombria.- disse ele sorrindo.
- Então, gostaria de ir comigo à festa?
- Acho que você está tomando meu lugar, mocinha. Então, quer ser acompanhada por um pobre homem abandonado?
- Adoraria, caro príncipe cachinhos de ouro.
Nós rimos. Então me senti leve. Leve como nunca havia me sentido antes. Tudo estava perfeito até então. Talvez até conseguisse a minha primeira dança naquela noite.

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publicado por cinderelashakespeariana às 16:30
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