Capítulo 12- Ilusão


 Fui entrando lentamente pelo salão. Lá estava ele, lindo como sempre. Senti medo, raiva, dor e arrependimento, tudo ao mesmo tempo. Aquela fora a primeira vez que um homem havia me chamado para sair. Teria sido perfeito, se eu não tivesse estragado tudo. Como sempre.
Tentei tomar coragem, mas no fundo sabia que seria injusto comigo e com ele, se o beijasse por medo de perdê-lo. Sabia também, que a pressão estragaria tudo. Decidi ser sincera. As palavras do "irmão urso" ainda ecoavam dentro da minha cabeça.
Corri até Leo. Sem pensar no que estava dizendo, fui jogando palavras ao ar, tentando aquela velha técnica do "vamos ver no que vai dar".
Respirei, inspirei e sem olhar nos seus olhos, segui para meu sepulcro:
-Vou ser sincera com você. É o primeiro com quem eu saio, e talvez até o primeiro por quem eu me apaixone. E como já disseram muitos poetas, o amor não se constrói sobre mentiras e dúvidas. Eu nunca beijei na minha vida. Sério, nunca mesmo. Nunca, nem ursinhos nem bonecas. E eu fico nervosa e suo frio. Não quero fazer isso agora, acho que não estou pronta. Desculpe.

Uma gargalhada irônica ecoou pelo ar, cortando meu momento de desabafo amoroso. Reconheceria aquela voz de bruxa em qualquer lugar. Era Bety.

-Pobrezinha! A princesa desajeitada se apaixonou! - gritou em tom de deboche.

Aproximou-se do meu príncipe encantado e o beijou animadamente.
Fiquei perplexa. Não entendia nada.
-O que.. o que ?- gaguejei.

-MEU NAMORADO! - disse declaradamente a nova bruxa do 71.
Um ódio misturado com orgulho ferido tomou conta de mim. Sentia dor e raiva por ter sido boba. Era óbvio. Tudo estava perfeito e isso vai contra todas as leis do meu mundo. Senti como se tivesse caido do céu, em um concreto duro. Doía, e muito.

-Ahn, espera Cindy! Eu não queria...- disse Leo nervoso, tentando explicar-se.
-Não queria ter me enganado? Não queria ter me feito de boba? Não queria ter sido cumplice dessa bruxa horrorosa? Que bom pra você. Conviva com sua consciência. Monstro!- disse eu, desabafando e caindo no choro.

Fui embora correndo. Desejei sair dali o mais rápido possível. Aquilo tudo que me parecera no inicio um conto de fadas, agora não era nada além de um conto de bruxas. Ou talvez, eu fosse a personagem errada.

Meu coração chorava. Me sentia traída, mesmo sem ter tido nada de concreto com ele. Senti como se já o conhecesse e havia até sofrido um pouco pela indecisão desse novo amor. Era como ter sido apunhalada pelas costas, por minha pior inimiga. Sentia-me destruída, acabada e envergonhada.

Joguei-me na calçada e fui tirando aos poucos a fantasia de urso.

-Então esse é o momento em que a lagarta se transforma em borboleta?- disse uma voz conhecida, mas ainda não identificada.
-Acho que a borboleta nasceu sem asas.

-Ora, que isso?! Vejo duas lindas asas coloridas aqui. As mais lindas.

Então, sentou-se ao meu lado. Levantei os olhos em sua direção.
A pele branquinha e aqueles olhos escuros tão misteriosos...Como eu esqueceria deles? Era o "irmão urso", sem o urso, dessa vez.
Delicado e atencioso. Era realmente encantador. Foi só então que percebi que ainda não havia perguntado seu nome.

-Ahn, Richard. Prazer.- disse ele sorrindo, como se tivesse lido meus pensamentos.
-Cinderela.- respondi sorrindo.

-Ah! Cinderela dos meus contos mais tristes!- cantarolou.
-Nossa, você canta mal hein?!

Caímos na gargalhada. Sem motivo, sem razão. Mas apesar de tudo, sentia-me confortável ao seu lado.

O silêncio hospedou-se ao nosso lado. Nossos olhares cruzavam-se com muita frequência. Entre uma olhadela e outra, paravamos obrservando a lua. Éramos parecidos, eu acho.

Então, sob o luar, sua mão tocou levemente a minha. Eu podia sentir seu coração. E sabia, que ele sentia o meu, batendo forte, muito forte.

Abraçou-me carinhosamente. Retirando o cabelo que tampava meu rosto, e limpando as lágrimas, senti que sua mão tremia.

Mais uma vez nossos olhares cruzaram-se. Mas foi a última, porque não pude mais desviar. Algo prendia-me ali, naqueles olhos.

Aproximou-se de mim lentamente. Senti medo, ansiedade, dor. Mas tudo passou. Todas as incertezas encerraram-se quando senti seu rosto colado no meu.
Meu primeiro beijo. Meu primeiro romance que não era imaginação.
Me senti amada. Amada e feliz.

 

publicado por cinderelashakespeariana às 22:13
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