Capítulo 2- O hospital de horrores

Mamãe sentia-se uma bola com pernas naquele verão de 95. Os intermináveis 9 meses de espera estavam chegando ao fim.
A cesariana estava marcada para o dia 12 de fevereiro. Todos aguardavam ansiosos do lado de fora da sala, ou nem tanto assim.
Papai estava uma pilha de nervos. Um dos médicos até tentou convencê-lo a ficar do lado de fora, com o resto da família, mas depois de muita insistência, acabou entrando para apoiar moralmente mamãe. É claro que nada daquilo adiantou, pois assim que o médico colocou suas luvas, ele caiu duro no chão.
Criou um alvoroço daqueles lá dentro. Algumas enfermeiras o levantaram do chão, levando-o para bem longe de mamãe, que gritava coisas horriveis como: "Você não é de nada! Frouxo! Quem é o homem dessa casa? Diga!", e "Eu te odeio! Seu franguinho! Venha já segurar minha mão!", e às vezes variava para:"Que papelão hein?! Queria te ver aqui parindo uma criança de 3,5kg!".
Por alguma razão, o médico decidiu não bater um papinho com ela durante a cirurgia.
Ocorreu tudo bem. Eu nasci feliz, ou nem tanto, porque logo depois de sentir o vento no cabelo e o cheiro da liberdade, já me deram uma surra! Dá pra acreditar nisso?
Eu não chorei. Seria forte.

Mais uma palmada.

O que foi que eu fiz para esse cara afinal?
Decidi fazer birra. Não ia chorar, não ia dar o que ele queria.
Mais uma palmada.
Ai, dessa vez doeu. Melhor chorar logo.
Chorei minhas lágrimas de crocodilo, esperniei bastante para chamar atenção. Ali estava a nova garotinha dos Anschau.
Eu era linda, linda demais. Pelo menos foi isso que eu pensei quando as enfermeiras suspiraram no cantinho da sala. Mas aí, é claro, percebi que tudo não passara de um tremendo engano. Notei que eu realmente não agradava nem um pouquinho no quesito beleza. Mamãe deixou isso bem claro soltando um "argh" e remexendo o rosto com desprezo.
Me levaram para longe dela. Deram um banho DAQUELES em mim, e só depois é que vi minha família pela primeira vez.
Fomos para casa um dia depois. Desejei voltar para o hospital o mais rápido possível. Havia me acostumado com tanta atenção das enfermeiras.

Todos queriam me segurar e conversar comigo. Eu gostava daquilo. Não fazia nada o dia todo e mesmo assim todos me achavam uma gracinha. Bons tempos aqueles.
Só muito tempo depois é que descobri, que na verdade o hospital é uma desculpa para os pais se livrarem do trabalho de parto, da sujeira da criança e do mau humor da mãe.

tags:
publicado por cinderelashakespeariana às 18:14
link do post | comentar | favorito