Domingo, 24 de Janeiro De 2010

Capítulo 3- Uma vida nova para a princesa

Se me permitem, pularei os meus primeiros anos de vida. Minha infância não foi muito diferente das convencionais, tirando o fato de que comecei a ler com quatro aninhos.
Acho que foi mais ou menos nessa época que começaram a me chamar de Cinderela Shakespeariana. Bem, não pense você aí que meu primeiro livro foi alguma obra de Shakespeare. Pelo contrário, a obra que recebeu o título de 1ª na minha vida foi a "Raposa e a cegonha", nada de muito emocionante, como todos sabem. Para ser sincera, não gostei nem um pouco daquela história.
Ninguém lá em casa gostava de ler, deve ser por isso que eu aprendi bem cedo, sempre fui do contra. Em um mês já havia decorado todas as obras infantis que possuíamos. Tentei ler livros adultos, mas meus pais não tinham nada além de um Kama Sutra velho e empoeirado. Acho que nenhum deles jamais o leu, provavelmente folhearam algumas vezes para apreciar as figurinhas sacanas.
Quando eu estava completando seis anos, minha família resolveu fazer uma viagem de férias. Sombra, mar e água fresca. Tudo o que papai sempre quis desde meu nascimento. O único problema é que eu não estava incluída no pacote.
Fiquei na casa de um primo meu. Acredito que aquele tempo que passei com Davi foi ótimo para minha formação. Ele era um homem culto e atencioso. Ajudava-me a ler obras muito interessantes da literatura estrangeira. Foi aí que descobri o fantástico mundo de W. Shakespeare.
Meus pais não voltaram para me buscar.
Depois de alguns meses, Davi começou a preocupar-se com a demora. Todas as noites, depois de me colocar para dormir, ele pegava o telefone e tentava encontrar minha família. Durante muito tempo tudo que conseguiu ouvir foi a secretária eletrônica avisando que não estavam no momento.
Um ano se passou e eu continuava morando com meu primo. Nem sinal de James, Rodrigo, mamãe e papai. Acho que foi nessa época que Davi passou a ser minha família.
Não posso reclamar da vida que levei com ele. Era perfeita. Brincávamos o dia inteiro e à noite íamos até um parque de diversões para gastar as energias que sobravam.
Só voltei a ver minha família quando tinha nove anos.
Era um domingo de manhã. Davi e eu estavamos tomando um delicioso café , para irmos até o teatro em seguida. A campainha tocou. Eles queriam me levar para casa.
Depois de tanto tempo, já havia perdido as esperanças. Já havia refeito minha família e essa era Davi, somente ele. Não havia vaga para viajantes naquele trem.
Me recusei. Mas como sempre, a "justiça" se opunha a minha decisão. Precisei partir.
Arrumei minhas coisas e sai, com a condição de visitar Davi todos os dias. É claro que isso nunca aconteceu. Meus pais arranjavam desculpas esfarrapadas para que eu não o visse. Com o tempo, os encontros foram diminuindo, até simplesmente se encerrarem.

 

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Capítulo 2- O hospital de horrores

Mamãe sentia-se uma bola com pernas naquele verão de 95. Os intermináveis 9 meses de espera estavam chegando ao fim.
A cesariana estava marcada para o dia 12 de fevereiro. Todos aguardavam ansiosos do lado de fora da sala, ou nem tanto assim.
Papai estava uma pilha de nervos. Um dos médicos até tentou convencê-lo a ficar do lado de fora, com o resto da família, mas depois de muita insistência, acabou entrando para apoiar moralmente mamãe. É claro que nada daquilo adiantou, pois assim que o médico colocou suas luvas, ele caiu duro no chão.
Criou um alvoroço daqueles lá dentro. Algumas enfermeiras o levantaram do chão, levando-o para bem longe de mamãe, que gritava coisas horriveis como: "Você não é de nada! Frouxo! Quem é o homem dessa casa? Diga!", e "Eu te odeio! Seu franguinho! Venha já segurar minha mão!", e às vezes variava para:"Que papelão hein?! Queria te ver aqui parindo uma criança de 3,5kg!".
Por alguma razão, o médico decidiu não bater um papinho com ela durante a cirurgia.
Ocorreu tudo bem. Eu nasci feliz, ou nem tanto, porque logo depois de sentir o vento no cabelo e o cheiro da liberdade, já me deram uma surra! Dá pra acreditar nisso?
Eu não chorei. Seria forte.

Mais uma palmada.

O que foi que eu fiz para esse cara afinal?
Decidi fazer birra. Não ia chorar, não ia dar o que ele queria.
Mais uma palmada.
Ai, dessa vez doeu. Melhor chorar logo.
Chorei minhas lágrimas de crocodilo, esperniei bastante para chamar atenção. Ali estava a nova garotinha dos Anschau.
Eu era linda, linda demais. Pelo menos foi isso que eu pensei quando as enfermeiras suspiraram no cantinho da sala. Mas aí, é claro, percebi que tudo não passara de um tremendo engano. Notei que eu realmente não agradava nem um pouquinho no quesito beleza. Mamãe deixou isso bem claro soltando um "argh" e remexendo o rosto com desprezo.
Me levaram para longe dela. Deram um banho DAQUELES em mim, e só depois é que vi minha família pela primeira vez.
Fomos para casa um dia depois. Desejei voltar para o hospital o mais rápido possível. Havia me acostumado com tanta atenção das enfermeiras.

Todos queriam me segurar e conversar comigo. Eu gostava daquilo. Não fazia nada o dia todo e mesmo assim todos me achavam uma gracinha. Bons tempos aqueles.
Só muito tempo depois é que descobri, que na verdade o hospital é uma desculpa para os pais se livrarem do trabalho de parto, da sujeira da criança e do mau humor da mãe.

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Capítulo 1- A cegonha!

Mamãe tinha 35 anos e dois filhos homens quando descobriu que estava grávida pela 3ª vez. Um acidente, é claro. Papai jamais imaginou que aquilo fosse acontecer. Seus planos de viajar nas próximas férias de verão estavam arruinados. Bem que ele tentou convecê-la a ganhar a criança no meio de uma praia deserta, para "celebrar" o amor. Mas é claro que todos sabiam que ele faria qualquer coisa para ir na maldita viagem.
Não funcionou.
James, meu irmão mais velho, decidiu fazer vestibular naquele ano. O que era uma grande conquista, já que levara oito anos para completar o ensino médio.
Mamãe estava tão animada com a novidade que esqueceu do resto do mundo. Do anticoncepcional também, provavelmente.

Na minha casa, ou melhor, no lar dos Anschau só falava-se do futuro doutor da cidade. James havia passado!
Uma semana depois, papai em seu distúrbio mental de preocupação resolveu verificar os comprimidinhos "evita-nenem" que mamãe tomava constantemente. Foi então, que o pobre coitado descobriu que a dona Gianne andava com a cabeça (e a boca) bem longe da prevenção.
Só então, no dia 27 de junho de 1994, na revisão médica da mamãe, a familia Anschau descobriu que teriam um novo membro dentro de 8 meses.

Era uma menina.
O alvoroço durou meses. Todos queriam dar opinião nas roupas, no quarto e principalmente no nome da pobre coitada que estava para nascer.
Tentaram de tudo. Coisas indefinidas como: Jamiga (mistura de James e Rodrigo, meus irmãos), Ginérgia (mistura de Gianne e Sérgio, meus pais) e Cinta-liga (ideia de James, após assistir durante uma hora e meia um programa sobre roupa íntima) apareceram ao longo do tempo.

No fim, depois de pesquisas intermináveis em livros e internet, quando mamãe já estava rendendo-se aos nomes comuns como Mariazinha ou Felisberta (se isso lá é nome...), uma músiquinha infeliz tocou no rádio, dando asas a imaginação pequenina dos Anschau.
Ela dizia: "Ai, ai, ai minha Cinderela dos contos mais tristes![...]"
E então, em uníssono, todos gritaram: Cinderela, este é o nome!
Para a minha infelicidade ninguém fez objeções à escolha.
A história de Cinderela Anschau,eu, começava.

 

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A cinderela

Costumo dizer que sou feita de duas metades: a sonhadora e a real.
Minha parte real pouco importa aqui. Levo-a pouco a sério, para ser sincera. Acredito que todos nós temos o direito de sermos quem quisermos ser. Sem objeções.
Minha parte sonhadora vai postar aqui constantemente os conflitos emocionais que percebo.
Quem sou, o que faço e com quem ando não interessa a ninguém. Isso não é omitir dados, mas preservá-los.

Agradeço desde já aqueles que acompanharão a partir de agora a história de uma garota que tinha um mundo inteiro nas mãos.

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